Depressão é doença e mata! Precisamos falar sobre

Depressão é ainda um assunto tabu, no entanto, precisamos falar sobre a doença mais incapacitante e que segundo dados da Organização Mundial de Saúde afeta 322 milhões de pessoas no mundo. O Brasil é o país da América Latina com o maior número: 11,5 milhões de pessoas e o segundo com maior prevalência nas Américas, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.

Quando pessoas famosas cometem suicídio o tema vem a tona, mas depois o estigma da doença volta com força e esquecemos de falar mais sobre a doença, seus portadores e formas de lidar com isto. Segundo a OMS cerca de 800 mil pessoas se matam por ano.

Geralmente é difícil entender os motivos que levam uma pessoa a tirar a própria vida. Muitos acham covardia, outros acham que é de uma coragem absurda dar cabo a própria vida pondo um ponto final no sofrimento. Na maior parte das vezes o suicida não quer realmente tirar a vida, ele quer dar cabo ao sofrimento, a angústia, as dores da alma – aquelas que ninguém vê e ninguém é capaz de imaginar a gravidade.

Tenho depressão de origem química, não produzo serotonina suficiente – hoje sei que a tenho desde criança, mas lá nos anos 1970 e 80 não se falava em depressão infantil – fui diagnosticada no início dos anos 90 (por incrível que pareça em um dos melhores momentos da minha vida, o período da faculdade). Ou seja, nem sempre a depressão é causada por traumas ou emoções negativas daquele período.

Tente matar e não cometi suicídio por Deus – ou qualquer outra coia que você acredite. Ia me jogar da varanda do apartamento que morava, no 9º andar, na hora que olhei para frente vi minha avó paterna – que faleceu quando eu tinha quinze anos e com quem era muito ligada – dizendo com sua voz suave: não faça isto! Volte para sua cama. E senti uma força como se alguém me segurasse nos ombros e me fizesse andar para trás. Tenho certeza que foi meu anjo da guarda.

Já me tratei com terapias alternativas, com antidepressivos, com terapia (fiz por mais de 10 anos e amava) e com o tempo e as crises fui aprendendo a lidar com a minha depressão. Assumindo que tenho a doença e que posso viver bem se souber como lidar com isto. As crises foram ficando cada vez mais espaçadas a medida que conhecendo meu organismo comecei a perceber antecipadamente os sinais chegando e tratando a partir daí.

Geralmente a depressão não me incapacita totalmente – muitas vezes continuei trabalhando e levando a minha vida quase em ritmo normal mesmo em meio a crise. Conheço alguns sintomas que a depressão me traz: dormir mais que o necessário – eu amo dormir, mas quando só quero ficar na cama o maior tempo possível é o corpo avisando que vem crise por aí, ficar sem tomar banho (eu amo tomar banho, digo que é meu momento de estrela, quando me mimo e me cuido), começar a me preocupar com todas as pessoas que amo – querendo saber onde estão, se estão seguras, o toque do telefone me sobressalta – já acho que é notícia ruim a caminho, olhar a faixa amarela no metrô – quando estou em crise ela parece me chamar para que me jogue, entre outros.

Tem gente que não consegue sair da cama e nem fazer as atividades cotidianas, cada caso é um e ninguém consegue entender muito bem o que sente ou o que os outros sentem.

Quando estou em crise a última coisa que quero escutar é: você não pode ficar assim, você tem que sair desta, não tem nada de grave acontecendo. Ninguém tem depressão porque quer, ninguém acorda e diz hoje é um bom dia para ficar depressivo e suscitar a piedade dos outros. Não é assim que funciona. Depressão não é tristeza e não passa tomando sorvete ou comendo chocolate.

Uma vez vi um vídeo que mostrava bem como é a vida de alguém que sofre de depressão: como se tivesse um monstro interno enorme sempre te fazendo sombra, infelizmente não salvei o vídeo, mas quando assisti parei e disse para mim mesma: é isto!

Estou abrindo meu coração aqui e falando da minha história com a doença tão abertamente porque de repente posso ajudar alguém que leia. Tenho tentado viver um dia por vez. A velha história do: Só por hoje ou o devagar e sempre.

Precisamos falar sobre depressão, sobre os mecanismos destes tempos insanos que vivemos que podem estar aumentando os casos da doença. Somos uma sociedade doente e precisamos rever conceitos enquanto sociedade também.

Quando ver alguém que acredite que sofra de depressão apenas escute o que ela tem a dizer e não a julgue. Se perceber que pode ter depressão busque ajuda o quanto antes.

Aproveito a oportunidade para agradecer a minha família e aos meus amigos que me acompanharam em tantas crises e sempre fizeram o possível para me ajudar a superar as crises. Vocês fizeram e fazem a diferença na minha vida.

 

 

 

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