Crônica: O Pierrô dos Carnavais passados

Recebi a crônica abaixo da assessoria de imprensa Lilian Comunica e achei tão bacana que resolvi compartilhar aqui. Vale a leitura e reflexão!

O Pierrô dos carnavais passados

por

Autor Daniel Souza de Nonohay

 

A Portela não havia chegado na metade do seu desfile, quando ele caiu de sono no sofá da sala. A boca abriu um pouco, deixando escapar um leve ronco, enquanto a passista da Escola quase sentava em cima da câmera de tv.

A mão direita, que segurava a cerveja, virou lentamente para o lado, até a boca da garrafa apoiar-se na barriga. Leandro não tinha o biótipo de gordo, embora tivesse barriga de gordo. Ela era uma bola dura e saltada, que parecia ter sido acoplada ao corpo magro, como naqueles brinquedos de criança, nos quais você substitui pedaços, tentando montar o boneco mais desajustado e engraçado possível.

Logo em seguida, um cutucão foi dado no seu braço.

— Leandro, acorda.

Nada.

— Leandro, ACORDA!

Abriu os olhos, assustado. Deu de cara com um Pierrô sentado no sofá ao lado dele. O rosto era redondo, quase uma caricatura. Havia uma sugestão de palhaço. Estava todo em preto e branco. Todo. Rosto, roupas, maquiagem. Até o cabelo, liso e rente à cabeça, que parecia desenhado. Uma pintura viva.

— Puta que pariu!!! — Leandro deu um pulo do sofá, jogando cerveja em um esguicho pela sala. Seu coração batia descompassado. Imediatamente começou a suar. Era um assalto. Estava sendo assaltado dentro da sua própria casa. A gente sempre pensa que aquilo vai acontecer com os outros e nunca com a gente. Que fantasia de merda esse assaltante está usando?

— Caralho! Fica calmo! — Leandro levantou os braços, ainda segurando a garrafa. Um pequeno fio de cerveja escorreu no seu ombro. Minha mulher. Preciso pensar nela.

— Pode levar o que quiser! Fica calmo!

 O Pierrô riu.

— Eu não estou nervoso, Leandro. Agora, tu pareces que vais ter um ataque. Baixa esses braços.

— O … o que tu quer. Pode levar tudo. Fica calmo!

— Eu não quero nada. Ou melhor, quero, mas nada do que tu estás pensando.

Leandro não estava entendendo nada. Olhou para a porta da rua, que continuava fechada. Como ele tinha entrado ali!

— O que que tu quer? Fica calmo!

— Eu quero que tu sentes aqui. — O Pierro deu duas palmadinhas no sofá e fez uma cara de inocente. Cada vez mais, ele parecia um palhaço no picadeiro. Leandro deu-se conta do surrealismo da cena. Baixou os braços e olhou para a garrafa vazia.

— Eu estou sonhando. — Falou com a garrafa.

— Se tu queres entender assim… Na verdade, eu moro entre o sono e a vigília. Não me dou bem com a sobriedade ou com a vigília. Para me veres, não podes estar totalmente desperto ou sóbrio. Também não podes estar abraçado com o Morfeu. Ele é um ciumento. E soturno. — O Pierrô balançou-se, como se um arrepio tivesse percorrido a sua coluna.

— Que sonho louco. Eu não bebi tanto assim.  — Leandro continuava a falar consigo mesmo. O Pierrô deu duas palmadas, chamando a atenção.

— Ei! Eu estou aqui. Não dá uma de evangélico e me ignora. — Leandro olhou para o Pierrô. Desistiu de racionalizar aquilo.

— O que, afinal, tu quer?

— Eu quero devolver uma sacanagem que tu fizeste comigo há alguns anos. Aliás, uma sacanagem que tu fizeste conosco.

— Quem tu é, afinal? — Aceitar aquela loucura devolveu a Leandro um pouco da coragem.

— Eu? Eu tenho muitos nomes.

— O Diabo tem muitos nomes.

— Eu o conheço. De todos os nomes, só tem um ou dois que ele gosta. Humanista é um deles. — O Pierrô baixou o tom de voz, sugerindo intimidade — Vou cometer uma indiscrição. Ele não gostou nada de ser chamado de Trump.

— Tu “conhece” o Diabo?! — Leandro fez a anotação mental de parar de beber cerveja. Todos os amigos diziam que o porre de whisky era melhor, além de a ressaca ser menor.

— Nós temos um parente em comum, o Caos. Precisa ver as festas da família. Mas eu não estou aqui para falar da minha árvore genealógica. — O Pierrô ficou sério. — Tu sempre fazendo isso, não é Leandro. Fugindo. Fugir é tua especialidade. Como naquela noite.

— Como assim, conhece o Diabo?! Quem tu é, afinal?

O Pierrô fez uma cara convencida. Cruzou as pernas, colocou as mãos no colo e olhou para as unhas. Em um movimento súbito com a cabeça, encarou Leandro.

— Podes me chamar de espírito do carnaval.

— Espírito do carnaval?

— Sim. Vais querer que eu repita todas as frases? Não sabia que tinhas algum retardo mental. Se soubesse, já tinha te perdoado.

— Espírito de carnaval? Caralho. A Rita falou que eu estava lendo demais nos últimos tempos. Nunca pensei que ela tivesse razão. Misturar Charles Dickens com o carnaval é sinal certo de loucura.

— E tu acreditas que o Dickens tirou a ideia dele do nada? Que não existe, mesmo, um espírito de natal? Ou um de carnaval? Leandro, existe até um espírito do dia da pátria, mas ele é tímido, além de andar meio envergonhado. A gente tenta conversar com ele, mas não sai da toca, o pobre coitado.

Leandro começou a se divertir.

— Então tu “é”, assim, uma espécie de entidade, que vaga por aí entre as pessoas?

— Bem. Eu prefiro ser chamado de Deus. Ou semideus. Anjo é legal, também. Entidade, veja bem, sem preconceito, é coisa de terreiro. Nada contra. A Iemanjá é linda e tal. Mas não gosto de ser confundido com Pomba-gira. Eu prefiro o glamour da avenida. O desfile luxuoso. As plumas e a purpurina.

Leandro balançou a cabeça. O que tinha naquela cerveja?

— Eu não acredito nem em Deus e tu quer que eu acredite que existe o espírito de carnaval?

— Em Deus, nem eu acredito. Mas podes ter certeza que o espírito de carnaval existe. — O Pierrô abriu um grande e simpático sorriso.

— E por que tu “está” vestido assim?

— Na verdade, não tenho uma forma definida. Eu apareço ao gosto do cliente. Tu és um cara meio antiquado. Há quanto tempo não vais a baile de carnaval? Canta uma marchinha? Entra em um trenzinho segurando a cintura da loira na frente? Nem te lembra, não é? O ápice dos teus últimos vinte carnavais é beber até dormir na frente da TV, esperando a Portela. Sequer isso tu consegues fazer direito. Dormes antes. Ou durante. Só podia dar nisso aqui, um Pierrô preto-e-branco.

— Ok, ok. — Leandro finalmente sentou de novo no sofá e colocou a garrafa vazia na mesa de centro. — E o que o espírito de carnaval está fazendo na minha casa?

— Eu sei que faz tempo que não passo por aqui. Por tua causa. Tu me sacaneaste. Agora é minha vez.

— Eu te sacaneei? Como assim? Eu não faço mal para ninguém. Sou daqueles que pede desculpa depois de espirrar. O que eu faria para uma “entidade”, desculpe, para o espírito de carnaval?

O Pierrô fez uma cara desconsolada. Olhou para os pés, que tinham grandes sapatos, como os de um palhaço. Leandro achou que, no final daquela conversa, estaria conversando com o Bozo.

— Eu tinha prometido te entregar para a Clotho. Conheces a Clotho? Ela é uma das Moiras Gregas. Aquelas que decidem o destino dos homens e dos Deuses. Ela veio me procurar. Aquela grega linda. Pele lisa, quase transparente. Não aparentava a idade, te juro. Milênios. Mas parece ter 20 aninhos. E ela te queria! Queria a ti!

— A mim? Por quê?

— Quando uma Deusa ancestral grega te procura, tu não perguntas “por quê”? Tu obedeces. Eu sou só um espírito de terceiro mundo. Carnaval, mesmo, é só abaixo da linha do equador. Lá em Veneza, por exemplo, eu era meio raquítico. Só encorpei quando vim para cá. Quando aquela diva apareceu, eu fiquei imediatamente abobado. Nem pela colombina fiquei assim. Imagina que lindo seria um filho do espírito do carnaval com uma Moira Grega? Um ser fantástico. Quase um Paulinho da Viola.

O Pierrô se levantou, subitamente nervoso pela lembrança.

— Tudo o que eu tinha que fazer, era te colocar naquele baile de carnaval com a Franciele.

— Hein? Franciele? Quem é a Franciele?

— Tu não a conheceste. O amor da tua vida. O Eros estava na jogada também, mas não falou comigo. O amor é arrogante. Meu primo em segundo grau. Também descendente do Caos. Mas o amor não gosta muito do espírito de carnaval.

— O amor da minha vida? — Imediatamente Leandro pensou na sua mulher, Rita, que estava dormindo no quarto deles.Como ela não acordava com essa conversa toda?

— Sim. Tudo o que tu tinhas que fazer era ir ao baile de Carnaval do centro acadêmico da faculdade. Lembra disso? Aquele que o Fernando foi te buscar no alojamento, implorando pela tua companhia.

— Lembro. Era no último ano da faculdade. Eu estava soterrado de plantas para desenhar e ainda tinha que entregar uma maquete logo depois do carnaval.

— Pois é. Fui eu que o mandei lá. Tu nunca ouviste direito as mensagens que eu mandava. Já o Fernando, bastava eu pensar e ele obedecia. Eu fiz de tudo, mas tu não saíste daquele quarto. Todas as peças estavam arranjadas … A Franciele era linda. Engraçada. Companheira. Uma mulher incrível. E queria sexo naquela noite.

— Eu não tinha como saber! Eu tinha coisas para fazer. Trabalhos para entregar. Se eu soubesse que tinha algo assim me esperando, é claro que eu tinha ido.

— Se tu soubesses o que te esperava, tinhas que trabalhar no Oráculo de Delfos, e não como arquiteto de reforminhas em apartamentos de novos ricos.

— Não ofende!

— Toda a graça é não saber o que te espera. Se as pessoas soubessem o que vai acontecer no carnaval, eu não existiria. Eu sou um artista, não um burocrata.

— Mas o que aconteceu com a Franciele?

— Acabou ficando com o Fernando. Foi coisa de uma noite só. Ela seguiu com a vida. É claro que a principal prejudicada foi a Antônia.

— Antônia? Que Antônia?

— A tua filha que não nasceu. Ela ia ser concebida naquela noite. Na verdade, a Clotho tinha planos era para a Antônia. Grandes planos. Ia ser uma líder. Talvez em escala global.

— Eu, eu … — Suspirou fundo. Quando falou, estava quase gritando. — Porra, eu fiz o certo. Fiquei trabalhando, não fui para a folia. Construí uma carreira. Tenho uma família. O que tu quer aqui?

— A Clotho nunca mais falou comigo depois daquilo. Quebrou meu coração. Eros, aquele filho-da-puta-arrogante, continuou me ignorando. Eu sou uma espécie de ovelha-negra da família. Até o Dionísio, que todos falam ser um liberal, sem preconceitos, não gosta muito de mim. Acha que eu estou invadindo a área dele. Enfim, tudo o que eu tinha que fazer era contaminar o teu coração com alegria. Deixar-te com vontade de fazer festa e se divertir. Mas isso que tu tens aí, dentro do peito, é de plástico.

Leandro deu de ombros.

— Não sei o que te dizer.

— Tu não “sabe”, mas eu sei. Deixei que tu continuasses a tua vida. Agora é minha vez de te sacanear. — O Pierrô gargalhou e, num gesto rápido, jogou um punhado de confete de carnaval na cara de Leandro. De tão rápido, alguns entraram na boca.

Leandro não conseguiu, sequer, cuspir. Foi transportado para a vida que teria ao lado de Franciele. Tudo passou em flashes rápidos e dolorosos. Viu a noite que teve com ela no carro de Fernando. As brigas com o seu pai, que insistia no aborto. Sofreu novamente ao sair de casa, com uma mala, ouvindo o choro da mãe. Pegou a filha nos braços e acomodou junto ao peito, logo depois do nascimento. Exauriu-se como garçom, estudando de madrugada, enquanto sua filha chorava todas as noites. Percebeu o calor das lágrimas escorrendo pelo o seu rosto, quando ergueu o diploma como um troféu, anos depois de a sua turma original se formar. Dividiu risos, sexo e livros com Franciele. Sentiu-se feliz e completo.

Tão rápido começou, tudo acabou. Ele chorava pelo o que não tinha sido. Colocou as mãos no rosto, escondendo as lágrimas.

— Não…. Não é justo. Eu sempre fiz o certo. Eu me esforcei. Eu trabalhei. Porra! Eu queria ter ido naquele baile. Não fui para estudar! Por quê?

O Pierrô riu.

— Não há um “porquê”. Você devia ter ouvido o seu coração. Ter me ouvido sussurrar no seu ouvido. Ter ouvido o Fernando. Mas não ouviu.

— Como eu ia saber? — Leandro ainda chorava.

— Não ia. Como eu falei, essa é graça da vida. Mesmo não sabendo, tu és responsável pelas tuas escolhas. E a tua escolha nos ferrou.

Leandro conteve as lágrimas e tentou recobrar um pouco da sobriedade.

— Eu amo a minha mulher.

— Ama tua mulher?

— Amo.

— Mesmo ela não gostando de ler sequer revista de fofoca?

— Amo.

— Mesmo ela insistindo que pares de beber?

— Amo.

— Mesmo ela querendo fazer sexo somente com a luz apagada? — Leandro titubeou, mas seguiu.

— Amo.

— Mesmo sabendo que ela não gosta de Guerra dos Tronos?

Aquilo, claramente, o abalou.

— Não gosta?

— Não. Acha chato.

— Chato. Todos os episódios?

— Sim.

— E mesmo assim ela vê todos comigo?

— Sim.

— Amo.

O Pierrô balançou a cabeça.

—Eros, seu filho-da-puta! — O Pierrô gritou, olhando para um dos cantos do teto, como se visse alguém ali. Passou aqui antes, só para mostrar que pode! Não dá para confiar nessa gente. Por isso ninguém empresta mais dinheiro para a Grécia. — Sacudiu a cabeça, em desaprovação.

— Bem, de qualquer modo, o que eu tinha para fazer aqui, já fiz. Talvez fosse o teu destino ser feliz de qualquer forma.

O Pierrô sorriu, piscou o olho com a lágrima desenhada embaixo e sumiu.

Leandro acordou no final do desfile da Portela. Tinha cerveja no ombro e sentiu o rosto molhado pelas lágrimas.

Correu para o quarto e abraçou a mulher, que gemeu reclamando.

Pelo resto da vida, ao se lembrar daquela noite, sentiria uma pontada de saudade de Franciele e Antônia.

  • Daniel Nonohay é juiz do trabalho

Li o texto e refleti muito em relação as escolhas da minha vida e aos nãos que já devo ter dado ao destino. E você se arrepende de algo que deixou de fazer?

Aproveito para agradecer a equipe da Lilian Comunica que logo me incluiu em seu mailing e sempre envia material bacana!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *